País
CP prepara oferta no troço Évora - Elvas. Nas mercadorias há desilusão na zona dos mármores
Antes da alta velocidade entre Lisboa e Madrid, pensada para 2030, a CP garante que terá oferta no troço Évora - Elvas "assim que a linha seja aberta à exploração". Já no transporte de mercadorias, há críticas por não haver paragens na zona de mármores. No dia em que se assinalam 170 anos da ferrovia em Portugal, a RTP Antena 1 faz um ponto de situação de uma linha a surgir no país.
Sem revelar pormenores, a CP - Comboios de Portugal confirma que já prepara a oferta comercial para o transporte de passageiros no novo troço Évora - Elvas, a poucos meses de ser aberto. Por aí vai passar o corredor de mercadorias entre Sines e Elvas e a futura alta velocidade entre Lisboa e Madrid, pensada para 2030.
Antes de chegar a esta etapa, a operadora ferroviária pública garante que vai avançar. "A CP está a preparar uma oferta para ser implementada assim que a linha seja aberta à exploração", aponta em resposta à RTP Antena 1, sublinhando que "a disponibilização da linha para exploração comercial é da responsabilidade do gestor de infraestruturas" - neste caso as Infraestruturas de Portugal (IP).
Não há ainda certezas sobre uma data concreta. As últimas informações públicas apontavam para que o troço fosse aberto no final deste ano ou início de 2027. A IP não esclareceu a rádio pública sobre se há uma altura específica para iniciar a circulação, numa altura em que o troço continua em testes.
Sobre o futuro desta linha ferroviária, no relatório do Orçamento do Estado 2027 no capítulo da ferrovia, quando são referidos os trabalhos em curso, é apontada "a abertura à exploração da linha Évora-Badajoz", deixando em aberto que, à semelhança da Linha do Leste, os comboios passem a vir desta cidade alentejana para chegar a Espanha.
Linha do Leste mantém-se
Apesar de questionada sobre horários, comboios ou o tipo de serviço que pretende realizar nos próximos meses, a CP fecha-se em copas nesta altura. Apenas garante que a Linha do Leste (Entroncamento - Badajoz) não vai sair do mapa ferroviário. "A CP não tem qualquer intenção de eliminar serviços de passageiros na Linha do Leste em resultado da entrada em exploração deste novo troço", mas antes "estabelecer uma complementaridade entre a nova ligação e a oferta atualmente existente", refere.
"A solução a implementar, incluindo a tipologia de serviços, o material circulante, os horários e o número de circulações, depende ainda da definição das condições de exploração e da disponibilidade da infraestrutura", aponta a CP, ficando por esclarecer por exemplo de serão usados alguns dos 22 novos comboios regionais da Stadler - apenas se sabe que a Linha do Alentejo (Lisboa - Évora/Beja) receberá até março de 2027 três desses novos comboios.
A operadora esclarece ainda que não começou a formação de maquinistas, pois a empresa "procurará assegurar que a formação decorra mais próxima da entrada em exploração".
O troço Évora - Elvas é uma das novas linhas a surgir em Portugal em décadas, a primeira onde os comboios vão poder circular até aos 250 quilómetros por hora. No entanto, os trabalhos de certificação do troço têm enfrentado alguns desafios e problemas, admitiu o Ministério das Infraestruturas e da Habitação em agosto em resposta ao grupo parlamentar do Livre.
Uma das questões prende-se com a contratação de entidades externas independentes que "tem-se revelado mais demorada do que inicialmente previsto" por causa da "escassez" destas entidades em Portugal e a procura no estrangeiro. A juntar a isto, o gabinete do ministro Miguel Pinto Luz admite impactos nos calendários e na certificação por causa de "furtos e atos de vandalismo nas infraestruturas construídas, nomeadamente em equipamentos de catenária, sinalização e telecomunicações. A RTP Antena 1 tentou obter mais esclarecimentos da IP, mas não os recebeu até à publicação deste artigo.
Desilusão no transporte de mármores
Quanto ao transporte de mercadorias, o novo troço Évora - Elvas vai integrar o Corredor Internacional Sul, permitindo a ligação de Sines até Espanha. No Alentejo, os empresários da zona dos mármores tinham esperança de vir a utilizar este corredor para o transporte das rochas ornamentais. Mas a poucos meses da entrada em funcionamento da linha, não se prevê que o comboio sirva uma das mais industrializadas zonas da região.
Há quase um século que a empresa de Francis Kezirian extrai mármore do chão de Vila Viçosa. Por muito tempo, a empresa teve uma "ligação direta pelo comboio" aos principais ramais da ferrovia portuguesa, explica. O comboio foi determinante para esta indústria até 1990 e a chegada do novo Corredor Internacional Sul trouxe a esperança de volta aos empresários.
"Passado 50 quilómetros, o custo do transporte já supera o custo do mercado do produto", afirma Francis, pelo que, para conseguir desenvolver estas atividades e chegar mais longe e aos mercados, "precisamos da linha de comboio" em vez do transporte por estrada.
Paulo Nobre - RTP Antena 1
O presidente da Câmara do Alandroal, no distrito de Évora, é um dos sete presidentes de Câmara que apresentaram estudos sobre os benefícios da paragem do comboio nesta região. A meses da entrada em funcionamento, não há qualquer paragem programada na zona dos mármores. João Grilo realça que não há "qualquer perspectiva" de locais "onde o território possa beneficiar do desenvolvimento económico associado à carga e descarga".
O autarca aponta que o investimento seria de 15 a 17 milhões de euros, considerando que o valor não é "extraordinariamente pesado para as contas do Governo". João Grilo lamenta a falta de decisão do executivo nesta matéria.